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Sandra Corveloni (à esq.) no ensaio. Premiada pela atuação no filme Linha de Passe, atriz diz querer “abraçar o mundo”

 

Revista BRAVO! | Julho/2008

TEATRO DA GLOBALIZAÇÃO

Uma estréia mundial agita o Festival de Teatro de Rio Preto: “O Retorno ao Deserto”, do dramaturgo Bernard-Marie Koltès. A montagem reúne atores franceses e brasileiros, entre eles Sandra Corveloni, melhor atriz em Cannes neste ano

POR GABRIELA MELLÃO

Em sua Arte Poética, o filósofo grego Aristóteles defendeu o teatro como um palco de revoluções. Acreditava na capacidade dessa arte — a mais popular naquele século 4 a.C. — de transformar valores de cada indivíduo e, desse modo, mover o mundo. Com uma obra que investia em inovações lingüísticas, o dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès (1948-1989) também enxergou no teatro um meio de derrubar barreiras. Nas mãos da diretora Catherine Marnas, da Compagnie Dramatique Parnas, de Paris, essas barreiras são, também, as que separam as nações. Com O Retorno ao Deserto, que tem estréia mundial no Brasil neste mês, a diretora explora potencialidades e limites da globalização. A peça é um dos destaques do Festival Internacional de Teatro de São José de Rio Preto (FIT) e segue depois para São Paulo e Paris.

Esse percurso já dá uma idéia das pretensões da montagem, e a idéia de romper os limites nacionais não é nova para Catherine. Ela já produziu, por exemplo, três peças com artistas locais no México — Roberto Zucco, de Koltès, Eva Perón, de Raúl Damonte Botana, e Alors Entonces, criação coletiva de seu grupo. Também já apresentou Dom Juan, de Molière, em Pequim. Mas O Retorno ao Deserto não se contenta com essas fórmulas tradicionais de intercâmbio: faz da troca internacional a própria essência do espetáculo. Para isso, Catherine recrutou atores brasileiros para trabalhar ao lado dos integrantes da sua companhia. Entre eles, está Sandra Corveloni, atriz integrante do Grupo Tapa, premiada em maio no Festival de Cinema de Cannes por sua interpretação no filme Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas.

O próprio texto — bilíngüe — será contundente no que se refere a essa troca internacional: os atores franceses tiveram aulas de português, e os brasileiros, de francês. Além disso, cada personagem será interpretado por dois atores, um de cada nacionalidade. A intenção é materializar em cena a luz e a sombra existentes dentro de cada um. “São as duas faces da mesma moeda”, diz Sandra, que se identificou com a linguagem teatral de Catherine: “Como eu, ela valoriza o texto, trabalhando a partir dele”.

Fundo a guerra da Argélia, o traumático movimento de independência do país do norte da África em relação à França, entre 1954 e 1962. Nesse contexto de violenta radicalização, a história mostra o embate entre dois irmãos em Metz — cidade natal de Koltès. Na trama, Mathilde (interpretada por Sandra Corveloni) volta à França 15 anos depois de ter fugido para a Argélia. É alguém que rejeita não só suas raízes francesas como a própria ordem estabelecida. Já seu irmão, Adrien, defende a língua e a cultura francesas. E ele, que vive na casa da qual ela é proprietária, se sente ameaçado em suas posses com o retorno.

Nesse sentido, antinacionalista, a montagem internacional corresponde a uma ambição do próprio Koltès, que costumava dizer que a língua e a cultura francesas — tão apreciadas pelo irmão Adrien — se tornariam mais ricas se alteradas por influências estrangeiras — ou seja, se se abrisse para o mundo. Exatamente o que Catherine faz. E Sandra enfatiza outro ponto. “Koltès toca em uma questão fundamental: o medo que as pessoas têm de sair do casulo, de ir pra vida”. A atriz deixa bem claro sua intenção em abraçar o mundo, principalmente agora, com a visibilidade que o prêmio em Cannes lhe deu: “Quero atuar, dirigir, fazer tudo”, diz.

Os familiarizados com o estilo de Koltès vão estranhar O Retorno ao Deserto, por causa de sua estrutura aparentemente tradicional, sem as inovações de linguagem presentes em outras peças. O cenário também não são os lugares marginais com os quais Koltès habituou seus espectadores, mas sim uma casa provincial e burguesa da França.

A própria Catherine desconfiou da eficiência do texto, indagando-se sobre se as crenças do protagonista Adrien não se tornariam uma denúncia fácil do etnocentrismo francês. “A história dessa peça poderia parecer francesa demais”, diz. Para ela, a montagem pedia um deslocamento, uma descentralização, além de um novo modo de interpretação: “O tema dos muros que protegem a propriedade provincial francesa ganha, em minha montagem, a evidência de um tema social: a divisão do mundo cada vez mais gritante entre ricos e pobres”, afirma.

A PEÇA

O Retorno ao Deserto. De Bernard-Marie Koltès. Direção de Catherine Marnas. Com Sandra Corveloni, Aline Filocomo, Jairo Pereira, André Auke, entre outros. De 10/7 a 12/7, às 21h30, no Teatro Municipal Humberto Sinibaldi Neto (av. Brigadeiro Faria Lima, 5.381, São José do Rio Preto, SP, tel. 0++/17/ 3226- 2626). De R$ 2,50 a R$ 10. De 17/7 a 19/7, às 21h, 20/7, às 19h, no Sesc Vila Mariana (rua Pelotas, 141, SP, tel. 0++/11/5080-3000). De R$ 7,50 a R$ 30.

 


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